LUANDA (O SECRETO) – O apagão dos serviços da UNITEL, registado entre os dias 28 e 29 de julho de 2026, ultrapassou a dimensão de uma simples falha técnica e abriu uma nova frente de debate sobre a robustez das infraestruturas críticas de Angola, a eficácia da supervisão estatal sobre o sector das telecomunicações, o processo de privatização da maior operadora móvel do país e a capacidade de resposta das autoridades perante uma interrupção que afectou milhões de utilizadores, empresas e instituições públicas.
A dimensão da falha, que se prolongou por mais de 48 horas em várias regiões do país, provocou constrangimentos nas comunicações, em operações bancárias, serviços empresariais e actividades dependentes das redes digitais. Apesar da reposição gradual dos serviços, permanecem por esclarecer, publicamente, as causas técnicas do incidente, os impactos financeiros e operacionais, bem como as medidas concretas para evitar novas ocorrências.
É neste contexto que o Grupo Parlamentar da UNITA anunciou que vai solicitar ao presidente da Assembleia Nacional a constituição de uma comissão parlamentar de inquérito e a realização de audições ao Executivo, aos ministérios responsáveis, ao regulador das comunicações e à administração da UNITEL.
Para o maior partido na oposição, o objectivo é apurar a natureza do incidente, avaliar os impactos sobre cidadãos e empresas, analisar os mecanismos de resposta adoptados, verificar o estado da cibersegurança nacional e identificar eventuais responsabilidades institucionais.
No comunicado, a UNITA considera “inaceitável” que um serviço classificado como essencial permaneça indisponível durante mais de dois dias sem informações detalhadas e tempestivas à população. A bancada parlamentar defende igualmente que os consumidores devem ser esclarecidos sobre a possibilidade de indemnizações pelos prejuízos sofridos e sobre a eventual exposição de dados pessoais, empresariais ou institucionais durante a interrupção dos serviços.
Por outro lado, o incidente também reacendeu o debate em torno da privatização da UNITEL, um dos processos mais relevantes do Programa de Privatizações (PROPRIV). A oposição sustenta que a alienação de 15% da participação estatal por 318 milhões de dólares ocorreu abaixo do valor potencial estimado em cerca de 600 milhões de dólares, apontando uma diferença de aproximadamente 282 milhões de dólares. Para a UNITA, estes números levantam dúvidas sobre a valorização dos activos públicos e sobre a estratégia adoptada pelo Estado na alienação da empresa. Essa posição corresponde à avaliação política expressa pelo partido.
Outro elemento que passa a integrar o debate é a recente inauguração do Data Center nacional, apresentado pelo Executivo como um investimento estratégico destinado a reforçar a modernização tecnológica e a capacidade digital do país. Para a oposição, a ocorrência de um apagão de grande dimensão pouco tempo depois desse investimento suscita questões sobre a resiliência da infraestrutura tecnológica e sobre os mecanismos de redundância e continuidade operacional. Até ao momento, não foi estabelecida qualquer relação oficial entre o incidente na UNITEL e o funcionamento do Data Center.
Especialistas em governação digital defendem que interrupções prolongadas em operadores de telecomunicações exigem avaliações técnicas independentes, devido ao impacto transversal que produzem na actividade económica, nos serviços públicos e na confiança dos utilizadores. Em mercados regulados, investigações desta natureza procuram determinar se houve falha tecnológica, erro operacional, vulnerabilidade de segurança ou outros factores.
A proposta da UNITA prevê que o Parlamento solicite um relatório detalhado sobre as causas do apagão, os impactos registados, as medidas de mitigação adoptadas, os protocolos de recuperação dos serviços, os mecanismos de protecção da informação e as lições retiradas para reforçar a segurança das infraestruturas críticas.
O episódio surge numa altura em que Angola acelera a digitalização da economia e dos serviços públicos, tornando a estabilidade das redes de telecomunicações um factor determinante para o funcionamento do sistema financeiro, da administração pública, da saúde, da educação e da actividade empresarial.
Enquanto persistirem perguntas sem respostas públicas sobre a origem da falha, a extensão dos prejuízos, a eventual responsabilidade dos intervenientes e as garantias de que situações semelhantes não voltarão a ocorrer, o apagão da UNITEL continuará a alimentar o debate político e institucional sobre a gestão de um dos sectores mais estratégicos da economia angolana.
No entanto, até ao momento, nem a Assembleia Nacional confirmou a criação da comissão parlamentar de inquérito nem as autoridades competentes divulgaram um relatório técnico público com conclusões oficiais sobre as causas do incidente.

