LUANDA (O SECRETO) – O confronto entre Abel Epalanga Chivukuvuku, líder do PRA-JA Servir Angola, e Adriano Sapinala, secretário provincial da UNITA em Luanda, ultrapassou o campo político e entrou na esfera judicial, com troca de acusações, processos-crime e divulgação de alegadas provas em vídeo. Mais do que um desentendimento pontual, o episódio revela tensões acumuladas e disputas de legitimidade que há muito atravessam a oposição angolana.
Na origem da queixa estão divergências políticas e pessoais que remontam à saída de Chivukuvuku da UNITA e à posterior criação do PRA-JA. Fontes próximas ao processo apontam que o actual líder do PRA-JA contesta declarações e actos que considera atentatórios à sua honra e credibilidade política, enquanto Sapinala, por seu turno, sustenta posições que procuram defender a imagem e a linha oficial do partido. A exposição pública de vídeos e outros elementos probatórios sugere uma estratégia de pressão mediática paralela à via judicial, sinalizando que a disputa também se trava no terreno da opinião pública.
O caso levanta questões mais amplas sobre a cultura política no seio da oposição. A incapacidade de gerir divergências internamente, aliada à tendência de judicialização de conflitos políticos, acaba por fragilizar instituições partidárias e comprometer a construção de uma frente coesa. Em vez de um debate centrado em propostas e soluções para o país, o espaço público é ocupado por acusações mútuas que alimentam a desconfiança dos eleitores.
Analistas sublinham que estas fracturas têm raízes estruturais: disputas por liderança, diferenças estratégicas sobre o rumo da oposição e heranças de conflitos internos mal resolvidos. A saída de figuras históricas, como Chivukuvuku, não dissipou essas tensões; pelo contrário, contribuiu para a sua redistribuição por novos actores e plataformas políticas, mantendo vivo um ciclo de rivalidade.
Neste cenário, o principal beneficiário tende a ser o MPLA. A fragmentação da oposição reduz a sua capacidade de articulação, dilui o voto e enfraquece a pressão política sobre o partido no poder. A poucos anos das eleições gerais de 2027, episódios como este reforçam a percepção de que a alternância política continua refém não apenas da força do MPLA, mas também das fragilidades internas dos seus adversários.
Mais do que apurar quem vencerá esta disputa específica, o episódio evidencia um problema mais profundo: enquanto a oposição não conseguir transformar rivalidades em convergência estratégica, continuará a oferecer vantagens políticas ao poder instalado.

