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‎ Jornalistas em Angola reconhecem falhas e assumem culpa dos erros do passado

Pela primeira vez na história de Angola de forma tão directa, jornalistas de diferentes gerações reconheceram falhas e assumem culpa dos erros do passado, em que a imprensa não foi apenas testemunha dos grandes conflitos políticos e militares que marcaram o país ao longo de 50 anos de independência,  foi também protagonista, amplificadora e, por vezes, cúmplice de processos que agravaram divisões, alimentaram intolerâncias e bloquearam caminhos de reconciliação.

‎A classe jornalística, admite que, em nome da disputa ideológica e da sobrevivência institucional, tomou partido em momentos decisivos, ora defendendo, ora atacando actores políticos sem o distanciamento necessário para garantir imparcialidade e verdade.

‎Ao assumir uniformes simbólicos em períodos de confronto armado, a imprensa contribuiu para exaltar narrativas que inflamaram ânimos e cristalizaram versões de heroísmos e culpas que, à luz do tempo, exigem revisão crítica.

‎Os jornalistas reconheceram que falharam no cumprimento de uma das mais nobres responsabilidades da profissão: não permitir que a informação se transforme em arma. Houve momentos — admitiram — em que a imprensa foi o prolongamento da lógica de guerra, violando o dever de humanidade e a exigência constitucional de respeito pelos direitos fundamentais. As transmissões em direto de fuzilamentos na década de 1970, em violação da Constituição de 1975 que não previa pena de morte, permanecem como uma das marcas mais sombrias do jornalismo angolano. Tão graves quanto esses episódios foram os textos deliberadamente construídos para incitar ao ódio, à perseguição política e à eliminação do adversário.

‎Por outro lado,  o papel da imprensa na véspera e nos desdobramentos da “sexta-feira sangrenta” de 22 de janeiro de 1993. A cobertura mediática, muitas vezes realizada sem verificação ou responsabilidade social, contribuiu para a formação de um clima de hostilidade que culminou em centenas de mortes, principalmente entre membros de um grupo étnico específico. Um dos profissional da comunicação, sintetizou que  “a imprensa não matou, mas ajudou a carregar a arma”.

‎Os jornalistas assumem igualmente que persistem práticas que continuam a ferir a integridade da profissão: julgamentos mediáticos, assassinato de caráter, silenciamento do contraditório, manipulação seletiva de factos e omissão deliberada em temas sensíveis. O país discute há décadas o impacto da lei de imprensa, da lei das terras, da nacionalidade, da justiça e da expropriação, mas a intervenção da classe jornalística foi considerada frágil, tímida ou inexistente. Reconheceu-se também que benefícios pessoais, favores institucionais e alinhamentos políticos continuam a moldar parte da produção jornalística nacional.

‎Os profissionais de comunicação afirmam, porém, que a reconciliação verdadeira exige coragem para “auto-penitenciar” ações e omissões. Para que a imprensa deixe de ser vista como um instrumento que divide e passe a ser percebida como um pilar de pluralismo, é necessário reforçar urgentemente a ética, a deontologia e a independência. A Conferência enfatizou que apenas um jornalismo plural, protegido de interferências partidárias, será capaz de promover diversidade de ideias e funcionar como mediador credível num país ainda marcado por feridas históricas.

‎Um dos pontos mais repetidos pelos intervenientes foi a necessidade de repensar a tutela dos órgãos de comunicação social do Estado, defendendo a sua transferência da esfera governamental para uma entidade verdadeiramente independente. Para os jornalistas, esta reforma é essencial para garantir transparência, credibilidade e liberdade editorial. Outra recomendação foi a revisão do estatuto orgânico da entidade reguladora da comunicação social, que, segundo os participantes, deve ser fortalecida e dotada das competências reais de supervisão previstas na lei das entidades administrativas independentes.

‎Os jornalistas reiteraram também que o Estado deve garantir o cumprimento efetivo do princípio constitucional de acesso à informação, condição essencial para evitar distorções e manipulações de factos. As entidades patronais foram chamadas a respeitar a cláusula de consciência e a não penalizar profissionais por exercerem cidadania fora do ambiente editorial. A valorização dos recursos humanos e formação contínua, melhores condições técnicas, estabilidade social, foi destacada como base para um jornalismo que sirva a democracia e não interesses paralelos.

‎A Conferência concluiu que, para os próximos 50 anos, o jornalismo angolano terá de assumir um papel mais ativo, empático e interventivo no processo de reconciliação nacional. Isso implica memória, coragem e ruptura. Implica deixar de tratar conflitos como matérias de combate e assumir a informação como instrumento de reconstrução. Implica, acima de tudo, recuperar a confiança perdida e reafirmar a imprensa como elemento central de um Estado de Direito que quer crescer, pacificar-se e reconciliar-se consigo próprio.

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