LUANDA (O SECRETO) – O kwanza passou oficialmente a integrar, desde 27 de julho, o Sistema de Liquidação Bruta em Tempo Real da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC-RTGS), tornando-se a segunda moeda de liquidação da plataforma que reúne 15 países e movimenta, em média, 250,7 mil milhões de rands por mês, a decisão permitirá pagamentos diretos em moeda angolana, reduzirá custos cambiais e poderá impulsionar o comércio regional, em 2025 as transações entre Angola e os restantes Estados da SADC atingiram 3,77 mil milhões de dólares, distribuídos por nove moedas, dos quais 2,99 mil milhões de dólares corresponderam às operações com a África do Sul, equivalentes a 60% do volume e 79% do valor total, porém especialistas consideram que o verdadeiro teste será a capacidade de o kwanza conquistar espaço nas transações comerciais e não apenas integrar formalmente o sistema.
Apurou o Jornal O Secreto que o anúncio foi feito pelo governador do Banco Nacional de Angola (BNA), Manuel Tiago Dias, e pelo governador do Banco da Reserva da África do Sul e presidente do Comité de Governadores dos Bancos Centrais da SADC (CCBG), Lesetja Kganyago, numa decisão apresentada como um marco para a integração financeira da região.
Por outro lado, dados oficiais revelam que, apesar da importância estratégica da medida, o comércio regional continua fortemente concentrado na África do Sul, país que domina a maioria das transações processadas entre Angola e a SADC. Esta realidade levanta dúvidas sobre a rapidez com que o kwanza conseguirá ganhar peso efetivo nas operações financeiras regionais.
Adianta o comunicado que a liquidação direta em kwanzas reduzirá os custos associados às conversões cambiais e permitirá pagamentos mais rápidos entre bancos, empresas e investidores. No entanto, economistas consultados em análises públicas sobre integração financeira africana têm defendido que a adoção de uma moeda nos sistemas de pagamentos depende sobretudo da confiança dos agentes económicos, da estabilidade cambial e do volume de comércio realizado nessa moeda.
Avança ainda a SADC que a integração do kwanza faz parte da estratégia de criação de um sistema multimoeda, estando prevista a futura entrada de outras moedas regionais, como a pula do Botswana, numa tentativa de reduzir a dependência de moedas externas ao bloco.
Sublinha o Comité de Governadores dos Bancos Centrais que a iniciativa facilitará o comércio, o investimento e a circulação de capitais na região. Contudo, indicadores económicos mostram que Angola continua dependente das exportações petrolíferas e que uma parte significativa das importações e das operações internacionais continua a ser liquidada em moedas fortes, como o dólar norte-americano.
Afirma o comunicado que o novo modelo permitirá maior segurança nas operações, uma vez que os pagamentos são liquidados diretamente pelos bancos centrais, reduzindo riscos operacionais e a necessidade de intermediários financeiros internacionais.
Por outra, especialistas defendem que a entrada do kwanza no SADC-RTGS representa um ganho institucional e político para Angola, mas alertam que a sua relevância económica dependerá da diversificação da produção nacional, do crescimento das exportações não petrolíferas, da previsibilidade das políticas cambiais e do reforço da confiança dos investidores na moeda nacional.
Lê-se no comunicado em que o Jornal O Secreto teve acesso, que a modernização do sistema está alinhada com os objetivos do G20 para tornar os pagamentos transfronteiriços mais rápidos, baratos e eficientes, reforçando a integração financeira africana.
No entanto, a inclusão do kwanza no SADC-RTGS, embora simbolicamente relevante, não altera por si só a posição da economia angolana no comércio regional. Sem reformas que aumentem a competitividade, ampliem a base exportadora e consolidem a estabilidade macroeconómica, o país corre o risco de celebrar um avanço tecnológico e institucional cujo impacto económico poderá demorar a materializar-se.

