Enquanto o mundo assinala o Dia Internacional dos Museus como símbolo de preservação da memória colectiva e valorização cultural, em Angola a efeméride voltou a expor um cenário marcado pelo abandono institucional, degradação patrimonial e ausência de uma estratégia cultural sólida capaz de proteger a história nacional.
Num posicionamento tornado público este 18 de Maio, o Governo Sombra da UNITA traçou um retrato crítico da realidade museológica do país, denunciando aquilo que considera ser o progressivo enfraquecimento das instituições responsáveis pela conservação do património histórico e cultural angolano.
Apurou o jornal O Secreto que a nota política distribuída pela organização destaca que os museus nacionais enfrentam dificuldades estruturais profundas, desde a precariedade das infraestruturas até à limitada capacidade técnica para conservação e digitalização dos acervos históricos.
No documento a que O Secreto teve acesso, o Governo Sombra da UNITA considera que “a realidade crítica dos museus do País” reflecte anos de desinvestimento no sector da cultura, situação que, segundo a organização, compromete não apenas a preservação da memória nacional, mas também o potencial turístico e educativo das instituições museológicas.
A formação política entende que Angola permanece distante dos padrões internacionais recomendados pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM), organismo que instituiu a celebração em 1977 com o objectivo de reforçar o papel dos museus na pesquisa, conservação, interpretação e exposição do património da Humanidade.
Para a UNITA, os museus angolanos continuam presos a uma lógica administrativa ultrapassada, sem modernização tecnológica consistente, reduzida integração digital e praticamente ausentes das grandes rotas turísticas nacionais. A organização acusa o Estado de tratar a cultura como um sector secundário, apesar dos discursos oficiais sobre valorização da identidade nacional.
Fontes ligadas ao sector cultural ouvidas pelo O Secreto defendem que muitos museus do país sobrevivem com equipamentos obsoletos, limitações financeiras e escassez de especialistas em conservação patrimonial, realidade que coloca em risco milhares de peças históricas de elevado valor cultural.
No documento consultado pelo jornal, o Governo Sombra defende uma “redinamização urgente” da rede museológica nacional, através da cooperação internacional com países de referência no desenvolvimento museológico, sobretudo nos domínios da digitalização, formação técnica e reabilitação das infraestruturas culturais.
A organização política considera ainda que a ausência de políticas culturais estruturantes revela uma contradição num país que frequentemente exalta o patriotismo e a preservação da memória histórica, mas onde vários espaços museológicos permanecem afastados da modernidade e sem capacidade de atrair investigadores, turistas e estudantes.
Analistas culturais entendem que o debate levantado pela UNITA ultrapassa a esfera política e expõe um problema histórico do Estado angolano: a dificuldade em transformar a cultura num verdadeiro instrumento de desenvolvimento económico, educativo e diplomático.
Num contexto em que várias nações africanas investem fortemente na digitalização e internacionalização dos seus acervos históricos, especialistas alertam que Angola corre o risco de continuar a perder espaço na valorização da sua própria memória colectiva, caso persistam o desinvestimento e a ausência de políticas públicas consistentes para o sector museológico.
