Angola sob ataque silencioso estrangeira sobre olhar das autoridades

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LUANDA (O SECRETO) — Numa operação que revela apenas a ponta de um iceberg criminal ainda em expansão, o Serviço de Investigação Criminal, SIC, desmantelou, a 6 de fevereiro, um dos maiores centros clandestinos de mineração de criptomoedas já identificados em Angola. Instalado no interior de uma antiga unidade fabril no município de Viana, o espaço operava com mais de 1 500 processadores de alta performance, convertendo energia furtada em riqueza virtual.

A descoberta, longe de ser um episódio isolado, insere-se num quadro mais amplo de operações ilegais que se multiplicam em Angola há mais de dois anos, muitas delas lideradas ou coordenadas por redes com forte presença de cidadãos chineses, segundo fontes policiais e dados recolhidos por O Secreto.

O centro em Viana não era apenas um foco tecnológico; tratava-se de uma instalação híbrida, construída em segredo e equipada com equipamentos de mineração especializados, ligados clandestinamente à rede pública de energia. Para alimentar a pesada carga eléctrica, os operadores usavam dois Postos de Transformação (PT) de 2 000 KVA cada um, ligados a um PT de 500 KVA da rede pública, um esquema que não só drena energia sem pagamento à ENDE como também fragiliza o sistema de distribuição na região.

Esse padrão de “energia barata” obtida à força não é novo em Angola. Em novembro de 2023, o SIC prendeu quatro indivíduos envolvidos em mineração ilegal no município de Cacuaco, onde dezenas de equipamento de mineração sistema estavam ligados diretamente à rede pública, consumindo milhares de watts de energia sem faturação alguma.

Em Talatona, no final de 2024, dois cidadãos chineses foram detidos por associação criminosa, mineração ilegal de criptomoedas e furto de energia e água, além de vandalização de infraestruturas públicas — um indício claro de que o problema extrapola a simples prática de mineração e envolve uma série de outros ilícitos correlatos.

O Crescimento Exponencial dos Centros Clandestinos

As autoridades não estão a enfrentar apenas casos esporádicos. Em menos de um ano, entre “Abril de 2024 e Março de 2025, foram desmantelados 41 centros clandestinos de mineração de criptomoedas em todo o país, com mais de 100 detenções, predominantemente de cidadãos chineses ou de redes com participação estrangeira.

Entre eles, destaca-se um sítio descoberto na região do Kilamba, onde foram localizados 8 contentores de equipamento de mineração avaliados em quase 17 milhões de dólares, compostos por cerca de 17 000 processadores “panda mining”, suficientes para montar cerca de oito centros de mineração do tamanho do encontrado recentemente em Viana.

Outro caso emblemático foi o desmantelamento de um complexo em Quiminha (Icolo e Bengo), considerado na altura o maior do país, com cinco naves em preparação para operação e uma subestação elétrica com 15 transformadores, cujo potencial de lucro poderia render milhões de dólares em criptomoedas se tivesse entrado em funcionamento.

Impactos e Prejuízos na Economia e Segurança

O impacto desses centros clandestinos vai muito além da simples violação da lei. A utilização não autorizada da rede eléctrica cria sobrecargas que podem provocar quedas de energia e prejudicar a estabilidade do sistema nacional, num país onde a distribuição eficiente de energia ainda enfrenta desafios significativos.

Estudos internacionais sobre o fenómeno mostram que, em mercados com consumo energético menos regulado, o roubo de energia por mineradores ilegais pode provocar prejuízos bilionários; Como exemplo é o caso que se registou na Malásia, foi estimado que mais de 1 bilhão de dólares em perdas decorreram de operações de mineração que furtaram electricidade entre 2020 e 2025.  Embora não haja um cálculo oficial para Angola, o padrão semelhante de consumo furtado sugere impactos financeiros e operacionais igualmente severos.

O quadro legal angolano reflete essa preocupação: a Lei sobre Mineração de Criptomoedas, em vigor desde 2024, estabelece penas de prisão de 3 a 12 anos para quem liga equipamentos de mineração ao sistema eléctrico nacional, além de sanções para quem possui hardware de mineração sem autorização.

Por outro lado, as investigações locais indicam que as redes por trás dessas operações não são isoladas nem improvisadas. Em muitos dos casos documentados, as infraestruturas eram instaladas com expressão de organização logística, recrutando mão de obra local, disfarçando os lugares como operações industriais legítimas e, em alguns episódios, até estabelecendo ligações que complicam a investigação pública.

Alguns relatos sugerem também a atuação de redes transnacionais, aproveitando lacunas legais e a criminalização tardia da mineração em Angola, o que permitiu a instalação de múltiplos pontos com relativa tranquilidade antes do reforço das acções do SIC.

O desmantelamento do centro de Viana não encerra o problema, ao contrário, evidencia uma guerra em curso entre as autoridades angolanas e redes criminosas que exploram uma tecnologia disruptiva fora de qualquer quadro legal ou ético. O SIC reforça que novas operações estão em preparação, com o objectivo de identificar, desarticular e julgar todos os envolvidos, nacionais ou estrangeiros.

No entanto, à medida que a economia digital avança e a procura por activos virtuais cresce globalmente, Angola enfrenta o desafio de proteger não apenas sua infraestrutura energética e jurídica, mas também sua soberania e futuro tecnológico, sem permitir que interesses ocultos transformem energia pública em riqueza ilícita.

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