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Munique

Angola em Debate: A Reconciliação que Ainda Não Aconteceu

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LUANDA (O SECRETO) — O Congresso Nacional de Reconciliação, promovido recentemente pela CEAST na capital angolana, foi mais do que um encontro político: transformou-se num espelho do país, revelando feridas antigas e um futuro ainda por definir. Entre discursos inflamados e diagnósticos severos, líderes partidários e figuras da sociedade civil confrontaram-se com uma pergunta essencial: pode Angola reconciliar-se consigo própria sem enfrentar a sua verdade?

O evento, que reuniu representantes de todas as forças políticas, expôs a tensão entre o discurso da paz e a realidade de um país onde a exclusão, a desigualdade e o poder concentrado permanecem como sombras da guerra.

Logo na abertura, Daniel Benedito, presidente do PRS, lançou um aviso: “Temos uma democracia de baixa intensidade, construída sobre exclusões e desconfianças.” A crítica encontrou eco em Mário Pinto de Andrade, do MPLA, que reconheceu que a falta de unidade nacional é “herança direta dos movimentos de libertação” — uma admissão rara num espaço político dominado, há décadas, pelo mesmo partido.

Outros foram mais duros. Manuel Fernandes, do partido Renova, afirmou que “a guerra eternizou o cidadão militante e o cidadão preso, mas esqueceu o cidadão comum”. Pedro Gomes, da FNLA, denunciou “uma ditadura disfarçada”, enquanto Filomeno Vieira Lopes, do Bloco Democrático, acusou o poder de “sufocar a diversidade política”.

Apesar das divergências, o diagnóstico foi partilhado: a reconciliação nacional continua incompleta. Para Camalata Numa, da UNITA, “o Acordo de Alvor representava uma independência inclusiva, mas foi traído por interesses hegemónicos.” Paulo Viana, do Partido Liberal, foi direto: “A reconciliação só será possível quando o MPLA compreender que não pode governar eternamente.”

Lionel Gomes, do Prajá, alertou que “a paz silenciou as armas, mas não curou as feridas”, enquanto o Dr. Leurindo Viage ligou o futuro à educação: “Sem escolas de qualidade, Angola continuará prisioneira da ignorância.” Alice Schipemba apelou à “desmilitarização emocional” do país.

A crítica mais contundente veio de Adalberto Costa Júnior, líder da UNITA: “A reconciliação não será possível com instituições capturadas. Um Estado sequestrado não pode representar o povo.”

Um país entre o fingimento e a esperança

Entre denúncias de “uma Angola de fingimento”, nas palavras de Alfredo Bunga, e apelos a uma “meia culpa coletiva”, de Lindo Tito, o congresso procurou caminhos para um novo começo.
Rosa Kanga, do Bloco Democrático, propôs um Pacto Nacional que envolva todos os atores. “A reconciliação não se faz com instituições dependentes do poder político”, advertiu. Do lado do MPLA, Tito Campange admitiu que “os problemas de hoje nascem da má governação”.

Florêncio Canhamjamba, do Prajá, resumiu o sentimento geral: “O problema não é o povo. É o governo.”

Propostas para um novo pacto nacional

A segunda sessão do congresso transformou a indignação em propostas concretas, entre as quais:

  • Despartidarização do Estado e das instituições públicas;
  • Revisão constitucional que reequilibre os poderes;
  • Autarquias locais como base da democracia participativa;
  • Alta Autoridade contra a Corrupção, com poderes reais;
  • Justiça distributiva e emprego jovem como pilares do desenvolvimento;
  • Valorização das línguas e minorias nacionais;
  • Criação de uma Comissão da Verdade, Memória e Reconciliação para enfrentar os traumas históricos.

A reconciliação como verdade

O congresso encerrou com um consenso raro: sem verdade, não há reconciliação possível. “Precisamos da verdade histórica, política e judicial”, resumiu um dos relatores.

Entre aplausos e silêncios, ficou a certeza de que Angola ainda vive entre o fingimento e a esperança. A reconciliação, disseram os participantes, não será alcançada por decretos ou slogans, mas pela coragem de enfrentar o passado e reimaginar o futuro.

“Não podemos continuar a fingir que estamos em paz enquanto a fome, a exclusão e a injustiça corroem a alma nacional”, alertou um dos delegados no encerramento.

O apelo final foi unânime: um novo pacto nacional, inclusivo, verdadeiro e humano capaz de transformar a reconciliação num projeto de futuro, e não num discurso repetido.

 

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