A UNITA anunciou a preparação de um pacto de transição política com o objectivo de prevenir conflitos no período pós-eleitoral das eleições gerais de 2027, em Angola.
A iniciativa, segundo o presidente do partido, Adalberto Costa Júnior, pretende promover estabilidade, diálogo e respeito pelas regras democráticas, afastando qualquer leitura de confronto político.
Para o maior partido na oposição, a proposta introduz no debate público um tema sensível, mas incontornável: a gestão da incerteza política num país que nunca conheceu alternância no poder. Embora Angola realize eleições regulares há décadas, a concentração do poder executivo e a hegemonia prolongada de um único partido tornaram a sucessão presidencial um momento particularmente delicado.
Por outro lado, as eleições de 2027 abrem um cenário inédito. A Constituição impede a recandidatura do Presidente João Lourenço, criando um contexto novo tanto para o partido no poder como para a oposição. É neste quadro que deve ser interpretada a ideia de um pacto de transição política.
Longe de representar uma ameaça à ordem constitucional, a proposta surge como um mecanismo preventivo, destinado a reduzir riscos de contestação violenta, reforçar compromissos democráticos mínimos e preservar a estabilidade social no período pós-eleitoral. A memória histórica pesa: Angola conhece os custos de processos eleitorais mal geridos e sabe que o período imediatamente posterior ao escrutínio é, muitas vezes, o mais vulnerável.
Ao avançar com esta iniciativa, a UNITA procura afirmar-se como um actor político responsável e preparado para governar, ao mesmo tempo que pressiona o sistema a aceitar regras claras de convivência democrática. A proposta coloca, porém, uma questão central: estarão todas as forças políticas dispostas a assumir compromissos que limitem a lógica do vencedor absoluto?
O principal desafio continua a ser a confiança nas instituições eleitorais e judiciais. Sem credibilidade institucional, qualquer pacto corre o risco de se tornar apenas um exercício retórico. Por outro lado, rejeitar à partida a ideia de diálogo e compromisso seria ignorar que a estabilidade política não se constrói apenas por via legal, mas também pela aceitação política dos resultados.
O debate sobre um pacto de transição não substitui reformas estruturais nem resolve, por si só, as fragilidades da democracia angolana. Pode, contudo, funcionar como um teste à maturidade política do país. Se tratado com seriedade, poderá contribuir para uma transição pacífica. Se descartado com leviandade, será mais um sinal de que Angola permanece refém da desconfiança permanente.
No entanto, em 2027, mais do que um vencedor eleitoral, Angola precisará de instituições capazes de gerir a mudança sem rupturas. O pacto de transição, nesse sentido, é menos uma solução definitiva e mais um ensaio sobre o futuro democrático do país.


