A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO, abriu suas portas, em Roma, para celebrar duas datas de profunda importância global: seus 80 anos de existência e o Dia Mundial da Alimentação. A ocasião, marcada por discursos, debates e compromissos renovados, reuniu dez chefes de Estado e mais de uma centena de ministros e vice-ministros no Fórum Mundial da Alimentação, com o foco central na erradicação da fome e da má nutrição.
Entre os principais oradores do evento esteve o presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, que, com um discurso contundente, destacou a contradição de um mundo que “produz comida suficiente para alimentar uma vez e meia a população global”, mas que ainda convive com a insegurança alimentar de 663 milhões de pessoas, segundo dados da FAO.
“Os governos precisam incluir os pobres no orçamento e transformar o combate à fome em política de Estado”, declarou Lula, reforçando ainda a importância do multilateralismo e da cooperação internacional como ferramentas essenciais para garantir o direito humano à alimentação.
Uma FAO indispensável
A celebração dos 80 anos da FAO foi também um momento de reflexão sobre os desafios e conquistas da organização, criada em 1945, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Em sua mensagem oficial, o secretário-geral da ONU, António Guterres, relembrou esse contexto e alertou para os perigos de complacência diante das crises contemporâneas — das mudanças climáticas aos conflitos armados.
“A solidariedade entre fronteiras, sectores e comunidades é mais necessária do que nunca. O progresso só será possível através de sistemas alimentares que nutram as pessoas e protejam o planeta”, disse Guterres.
O director geral da FAO, QU Dongyu, também sublinhou o papel da organização e de cada indivíduo na construção de um futuro alimentar mais justo: “Todos têm um papel a desempenhar — dos agricultores aos consumidores, dos jovens aos líderes políticos. Só juntos podemos garantir que ninguém fique para trás.”
Exemplos de transformação
Durante o evento, foram apresentados casos emblemáticos de impacto positivo da FAO ao redor do mundo. Um deles é o projecto de cacau sustentável em São Tomé e Príncipe, que integra o Programa Iniciativa de Restauração. Com foco na agricultura familiar, especialmente liderada por mulheres, a iniciativa já recuperou mais de 8 mil hectares de terras agro-florestais, com meta de alcançar 36 mil hectares até 2030.
A produtora Camila Varela de Carvalho, da cooperativa Cecab, deu um testemunho comovente: “O cacau mudou a minha vida. Com o que ganho, consigo alimentar e educar os meus filhos.” O projecto também contribuiu para que o sistema agro-florestal do país fosse reconhecido como Património Agrícola de Importância Global (GIAHS).
Uma chamada global à acção
Ao longo da semana, especialistas, representantes da sociedade civil, produtores e jovens líderes discutem soluções concretas para tornar os sistemas agro-alimentares mais sustentáveis, resilientes e inclusivos. A urgência da pauta é inegável: em um mundo onde a produção de alimentos excede a necessidade da população, a persistência da fome escancara desigualdades sistémicas e a necessidade de acção coordenada.
O Dia Mundial da Alimentação, celebrado anualmente em 16 de Outubro, reforça que cada acção conta. E, neste ano, a mensagem é clara: só será possível vencer a fome com vontade política, inovação e solidariedade global.


