O homem das sombras: O poder oculto do general Furtado na Casa Militar

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Fonte bem posicionada revela como o ex-chefe da Casa Militar terá controlado manifestantes, tribunais, credenciamento de jornalistas e nomeações ao mais alto nível do Estado

‎Redacção de Investigação | O Secreto | Maio de 2026

‎A Queda Súbita de um Homem Poderoso

‎O Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, exonerou o ministro de Estado e chefe da Casa Militar, general Francisco Pereira Furtado, poucas horas após este ter participado numa actividade oficial em Luanda, a inauguração do novo Centro de Dados e Cloud do Governo.  A rapidez da decisão surpreendeu a classe política e os analistas: o general estava ao lado do Presidente de manhã e estava fora do cargo ao fim do dia. Para muitos observadores, a brevidade do processo foi, por si só, um sinal de que algo mais profundo estaria em causa.

‎Francisco Pereira Furtado, general na reforma e antigo chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas entre 2006 e 2010, chefiava a Casa Militar desde setembro de 2022.  Com um percurso marcado pela sua ligação histórica às estruturas militares do país, integrou o núcleo restrito de conselheiros do Presidente em matérias estratégicas, sendo frequentemente associado à gestão da segurança presidencial e à articulação com os serviços de inteligência. Durante quase quatro anos, ocupou uma das posições mais sensíveis e menos escrutinadas de todo o aparelho de Estado angolano.

‎A exoneração ocorreu em meio a escândalos envolvendo o seu nome. Nos dias anteriores, uma denúncia grave vinda de dentro da própria estrutura da Casa Militar expunha um cenário de alegado abandono institucional, dívidas salariais e promessas incumpridas que recaíam directamente sobre a sua liderança. Mas fontes bem posicionadas ouvidas por O Secreto revelam que o rastilho vai muito mais fundo do que os relatos públicos sugerem.

‎Uma fonte com acesso directo às estruturas da Presidência da República, que pediu anonimato por razões de segurança pessoal, revelou a este jornal um quadro perturbador sobre o exercício do poder do general durante o período em que chefiou a Casa Militar.

‎Segundo este relato, Furtado terá actuado como verdadeiro árbitro de decisões que formalmente competem ao poder civil e judicial, desde a repressão de manifestantes, passando pelo controlo do acesso dos órgãos de comunicação social a eventos presidenciais, até à influência directa nas nomeações para os mais altos cargos da República. “Era ele que mandava prender os manifestantes. Era ele que ditava a regra nos tribunais sobre as condenações. Toda a pessoa que manifestava contra o governo, que fazia greve,  tudo era da responsabilidade dele”, afirma a fonte. O Secreto não conseguiu obter confirmação independente destas afirmações específicas até ao momento da publicação.

‎A fonte vai mais longe ainda nas suas alegações e apontando o nome do general a uma série de mudanças institucionais de grande impacto. Sobre a saída de Hélder Pitta Groz da Procuradoria-Geral da República, o general cessou o seu mandato de cinco anos a 16 de Dezembro de 2022, tendo renunciado à sua recandidatura num contexto descrito como de forte tensão institucional.

‎A nossa fonte afirma que foi Furtado quem teria influenciado essa saída e quem teria actuado para impedir que o procurador Mota Liz fosse posteriormente indicado para o cargo — afirmações que não foram possíveis de verificar de forma independente. A exoneração do ministro do Interior, Eugénio Laborinho, é também colocada no mesmo quadro de influência. A liderança de Laborinho ficou marcada por diversas polémicas, entre as quais a frase “a polícia não está para distribuir chocolates e rebuçados”, aplicada a cargas policiais sobre manifestantes em 2020.

‎A fonte aponta Furtado como tendo pressionado a saída de Laborinho — uma afirmação que este jornal não pôde confirmar por fontes oficiais.

‎Num episódio que a fonte considera revelador da complexidade do personagem, Francisco Pereira Furtado denunciou publicamente, na cidade do Soyo, o envolvimento de altos dirigentes do país no contrabando de combustível para a República Democrática do Congo, referindo entre as figuras identificadas governantes, antigos governantes, oficiais generais, oficiais comissários, autoridades administrativas e tradicionais.

‎A denúncia criou vários estados de opinião e suspeitas. De forma curiosa, nessa mesma semana, o site Club-K noticiava a apreensão, na RDC, de camiões provenientes de Angola com cobalto, alegando serem pertença do próprio general Furtado — num jogo descrito como de ataques e contra-ataques.

‎A fonte ouvida por O Secreto afirma que o problema do contrabando de combustível está directamente ligado a redes que o general teria protegido, e que “está sendo mal conduzido até hoje” por essa razão. Trata-se de uma alegação grave que não foi possível verificar de forma independente.

‎Um dos episódios mais concretos relatados pela fonte prende-se com a visita do Santo Padre Papa Leão XIV a Angola. Segundo o relato, terá sido o general Furtado quem controlou pessoalmente o processo de credenciamento dos jornalistas para cobrir a visita papal, tendo inicialmente impedido a acreditação dos profissionais da Rádio Despertar, órgão historicamente ligado à UNITA. Segundo a fonte, só após protestos e denúncias públicas de vários jornalistas é que os credenciamentos foram desbloqueados. O Secreto tentou obter confirmação junto da direcção da Rádio Despertar, mas não obteve resposta em tempo útil. Este episódio insere-se num quadro mais amplo descrito pela nossa fonte: o general teria detido poder de decisão sobre quais os órgãos de comunicação social que cobriam as actividades presidenciais e governamentais de maior sensibilidade política.

‎A fonte estabelece ainda um paralelo histórico com o general Manuel Hélder Vieira Dias Júnior, conhecido como “Kopelipa”, que desempenhou papel semelhante nos anos finais da governação de José Eduardo dos Santos como figura de controlo político e de segurança nas sombras.

Segundo o relato, Furtado representaria a continuação desse modelo na actual governação. A mesma fonte revela que a sua influência teria chegado à Comissão Nacional Eleitoral, numa altura em que o país se prepara para as eleições de 2027, e aponta ainda ligações ao general Manuel Hélder Pinto, conhecido como “Miala”, chefe do serviço de inteligência, afirmando: “Dizem que não, mas ele mandava dar a ordem superior.” Esta é a alegação mais sensível do relato e a que menos elementos de verificação independente foi possível a O Secreto obter até ao momento.

‎O que é verificável e documentado é o seguinte: a exoneração foi decretada “por conveniência de serviço”, sem qualquer justificação pública.  O general chefiou durante quase quatro anos uma das estruturas mais opacas do Estado angolano. As denúncias internas eram sérias. E a saída foi tão súbita quanto a queda de um homem que, pela manhã, ainda estava ao lado do Presidente.

‎Este jornal adopta os princípios do jornalismo de investigação responsável. As alegações atribuídas à nossa fonte são sérias e de interesse público, e foram assinaladas claramente como alegações não confirmadas de forma independente.

‎O Secreto continuará a investigar e publicará novos elementos à medida que forem apurados. Qualquer pessoa visada nesta reportagem tem o direito de resposta garantido e pode contactar a redacção.

‎© O Secreto — Todos os direitos reservados. Reprodução autorizada com indicação da fonte.

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