LUANDA (O SECRETO) — O presidente do Movimento do Povo, Ngola Kiluanje, lançou um dos mais duros ataques contra o actual sistema partidário angolano, acusando várias formações de viverem do financiamento público, de não fazerem trabalho político consistente junto das comunidades e de não demonstrarem capacidade para disputar o poder em 2027. Na sua avaliação, apenas cinco partidos, MPLA, UNITA, Cidadania, Partido Liberal e PRA-JÁ – Servir Angola , demonstram actualmente capacidade de mobilização e intervenção política.
Em conferência de imprensa, Kiluanje defendeu que as organizações políticas devem trabalhar muito antes do período eleitoral, mantendo contacto permanente com as populações, promovendo a educação cívica e intervindo na defesa dos direitos dos cidadãos. Para o activista, a democracia não funciona apenas durante as campanhas, uma vez que a presença contínua determina a confiança do eleitorado: quanto mais os cidadãos acompanharem o trabalho de uma força política, maiores serão as suas possibilidades de conquistar votos.
O líder do Movimento do Povo criticou fortemente formações como a FNLA, o PDP-ANA, a PADDA – Aliança Patriótica, o PPA, o Partido Humanista, o Bloco Democrático, o PNSA e o RENOVA Angola, questionando a sua utilidade actual. De forma contundente, afirmou que algumas “não estão a fazer merda nenhuma”, acusando-as de permanecerem invisíveis na sociedade e de aguardarem apenas pelos recursos estatais destinados aos períodos eleitorais.
Tais declarações constituem a posição do activista e não uma conclusão independente deste jornal. As formações citadas deverão exercer o direito ao contraditório relativamente às acusações sobre a alegada falta de actividade, estruturas territoriais e dependência financeira. A denúncia levanta ainda uma questão pertinente: qual é o destino do financiamento público atribuído aos partidos e que mecanismos existem para fiscalizar esses recursos?
Kiluanje referiu ter mantido encontros, no último ano, com representantes de várias forças políticas, incluindo MPLA, UNITA, FNLA e RENOVA Angola. Segundo relatou, encontrou propostas e visões mais consistentes no MPLA, na UNITA e no Partido Cidadania, enquanto noutras organizações identificou essencialmente discursos sem programas capazes de responder aos problemas do país.
O Cidadania, o Partido Liberal e o PRA-JÁ foram apontados como exemplos de formações recentes que conquistaram visibilidade através da sua acção no terreno e do uso estratégico das redes sociais. Na sua perspectiva, os partidos não podem depender exclusivamente dos órgãos de comunicação tradicionais, pois as plataformas digitais permitem apresentar directamente ideias e posições aos cidadãos.
A educação cívica constituiu outro ponto central da intervenção. Para o activista, as organizações políticas têm a obrigação de ensinar os cidadãos a conhecer os seus direitos, a compreender o funcionamento das instituições e a distinguir os símbolos nacionais dos partidários. “Um partido político tem a obrigação de fazer pelo menos educação ao cidadão”, afirmou.
A intervenção ganhou maior dimensão quando defendeu a extinção de várias forças políticas por falta de actividade relevante, mencionando especificamente o PDP-ANA, PPA, PADDA-AP, PH e RENOVA Angola. “Os outros dez partidos devem ser extintos”, declarou, reiterando que apenas cinco demonstram interesse em trabalhar com a população.
Cumpre assinalar que esta posição não constitui uma decisão jurídica. A legalidade, suspensão ou extinção de partidos depende estritamente dos requisitos previstos na lei e das decisões das instâncias competentes.
Noutro momento polémico, o activista reagiu às declarações atribuídas a um dirigente do PDP-ANA, segundo o qual o partido seria poder em 2027, classificando a afirmação como desprovida de sentido e questionando a capacidade da organização. As palavras utilizadas foram agressivas e incluíram insultos dirigidos ao dirigente. O Secreto mantém o conteúdo essencial por ter sido proferido publicamente, atribuindo-o integralmente ao autor.
Ngola Kiluanje rejeitou que as suas críticas representem apoio ao MPLA ou à UNITA, explicando que reconhecer acções concretas de uma formação não significa alinhamento partidário. Como exemplo, citou a queixa apresentada pela UNITA contra o governador do Uíge após episódios de violência política, considerando a iniciativa um exemplo de recurso aos mecanismos institucionais para defender militantes e cidadãos.
Por outro lado, salientou que os movimentos sociais não existem para derrubar governos, mas para defender direitos, garantindo que criticará qualquer força política que os viole.
Sobre a actuação de empresas estrangeiras, o activista denunciou alegadas situações de exploração de trabalhadores angolanos em algumas empresas chinesas, questionando os salários e a criação de emprego nacional. Contudo, defendeu que os investidores estrangeiros não devem ser combatidos, mas sim fiscalizados dentro da lei, garantindo o respeito pelas normas laborais. Esta denúncia suscita igualmente a necessidade de averiguar quantas empresas foram alvo de processos e fiscalizações pelas autoridades competentes.
Kiluanje apontou ainda falhas na gestão pública, citando problemas na Polícia Nacional, nos hospitais e no sistema de ensino como sinais de falta de uniformidade na prestação dos serviços públicos. A afirmação reflecte a sua avaliação política e não o resultado de uma auditoria independente.
Quanto à alternância política em 2027, sustentou que a única via legítima para retirar o MPLA do poder é a eleitoral. Para isso, a oposição precisa de aumentar a sua organização, apresentar programas concretos e actuar junto das comunidades. Embora veja o cenário concentrado entre o MPLA e a UNITA, entende que os movimentos sociais começam a ganhar capacidade para influenciar o debate público e, em determinadas circunstâncias, direccionar votos — um impacto cujo real peso apenas a votação poderá medir.
A conferência terminou com um desafio directo aos partidos para que demonstrem, antes de 2027, que possuem capacidade para governar. Na visão de Kiluanje, quem não consegue organizar uma estrutura, apresentar um programa e manter presença nacional dificilmente convencerá o eleitorado de que está preparado para administrar o país.
As questões deixadas pelo líder do Movimento do Povo ultrapassam a sua figura individual: quantos partidos possuem estruturas efectivas nas 21 províncias? Quantos desenvolvem actividade permanente fora das campanhas? Como utilizam as verbas públicas? Com as eleições de 2027 no horizonte, caberá às formações citadas responder com factos e trabalho no terreno.


